3.11.09

TREINADORES

Julgo ser altura para perguntar: para que raio fomos nós mudar de treinador o ano passado?


Tínhamos cá um homem que nos subiu de divisão, nos pôs em 3º lugar na época seguinte e em 8º lugar na imediatamente a seguir (bem melhor do que vamos conseguir este ano) e passou-se o ano a verberar o homem, que tinha mau feitio, que treinava sem método, que falava demais, que "muito obrigado pelo que nos proporcionou mas terminou o seu tempo no Vitória", em suma, um sem número de motivos. Muitos deles lógicos.

Mas agora, depois da tão aguardada chicotada ao Cajuda, pergunta-se: foi para melhorar?

É claro que até podíamos ter posto cá um treinador melhor, mas a verdade é que, como, tirando o Zandinga e o Nostradamus, poucos mais profeciam o futuro, resta-nos agarrar-nos ao presente quando ele nos dá resultados no mínimo satisfatórios. É um pouco como com o Scolari, quase ninguém gostava do homem nem do futebol praticado pela Selecção, mas que nos conseguiu colocar sempre em fases finais (coisa até aí nunca vista, nem na geração de ouro), esse é que é o facto.

Eu bem sei que a ajudar à saída do Cajuda (tornando-a mesmo inevitável) estiveram as declarações inacreditáveis do homem quase a obrigar a Direcção a despedi-lo. Mas aquilo a que me refiro é ao que se foi passando antes, o caminho de progressivo afastamento do treinador que levou a que essas declarações tivessem sido proferidas.


Meus amigos, eu não tenho a pretensão de vir agora mostrar que tinha ou deixava de ter razão que ninguém - muito menos o Vitória - ganha nada com isso. Venho com esta conversa apenas para alertar um pouco estas nossas consciências às vezes demasiado latinas, de mudar por mudar, de mudar porque estou farto de o ouvir, de mudar porque sim. É porque a partir de certa altura, a vontade de mudar é tanta que mesmo as coisas que os homens fazem bem, nós já só vemos nelas mal, já só conseguimos ver em cada substituição algo de criticável, em cada postura táctica algo de censurável. Bem sei que cada vitoriano o faz apenas com o intuito de ajudar a sua equipa, da qual deseja o melhor, o que apelo é para que façamos aqui uma pequena introspecção, um exercício de consciência que nos leve, desejavelmente, a concluir que às tantas, embora querendo ajudar, estamos a prejudicar mais o nosso clube do que a ajudá-lo. Que estamos, como disse um outro ex-treinador, esse sim de má memória, a fazer harakiri como os samurais, causando mais mal a nós próprios do que aos outros. Caramba, o Vitória, infelizmente, nem tão grande é assim para ser tão exigente com os seus treinadores.

Acaso estivessem no Vitória, estou certo que o Leonardo (treinador do A.C.Milan) e o Manuel Pellegrini (treinador do Real Madrid) já há muito estariam de malas aviadas para longe do castelo. Mas será que estas purgas são em benefício dos interesses do nosso clube? Será que o Vitória alguma vez, repito, alguma vez mudou no imediato com a mudança de um treinador que cá tenha deixado obra? Acho que nunca.

Ao que fizemos chama-se trocar o certo pelo incerto, filosofia que contraria o gosto de correr riscos e que eu, por princípio, prefiro não seguir.

E já tinha defendido o mesmo, neste mesmo blogue, quando toda a gente queria correr o Machado de Guimarães à vassourada e eu defendia a sua continuidade. Hoje é um dos melhores treinadores portugueses da actualidade. Continua a jogar o mesmo futebol merdeiro, e a ter o mesmo feitio metediço e até arrogante, mas ganha, apura o Nacional para as competições europeias, e faz até com que muitos dos se disponibilizavam a pagar-lhe o bilhete de ida, defendam hoje o seu regresso. Mas hoje já é tarde. Fez-se a vontade a alguns (muitos) sócios impacientes em despedir o treinador, mas fez-se mal ao Vitória que viu interrompido mais um projecto.


E este é, em minha opinião, o repto para todos nós. Que saibamos, cada um de nós, ter a humildade de ver que porventura errou ao clamar toda a época pela saída do Cajuda. Até me podem dizer que estiveram certos, mas para o Vitória foi, como se vê, claramente pior. E repito, não me refiro às circunstâncias últimas que condicionaram a sua saída, mas a tudo o que a antecedeu.

Agora, mandamos o homem embora, ficou toda a gente satisfeita, e andamos quase em último lugar, já vamos no 2º treinador da época ainda antes de Novembro, já vemos que não se sentem melhorias no futebol da equipa, contrariamente ao que sucede com outras equipas que mudaram aquando a nós (Académica por exemplo), em suma, para o Vitória, essa saída resultou em muito maior prejuízo do que ganho.

Por isso considerar legítimo agora perguntar-se: para quê?

O que ganhou o Vitória com isso? Nada, só perdeu. Como se vê.


Uma última palavra para o Paulo Sérgio:

Escrevi aqui do Vingada, em 18/Agosto, que "acho que com o Prof.Nelo vamos ter este futebol sensaborão, que não entusiasma ninguém." Parece que não me enganei. Mas em bom rigor nem deram tempo ao homem para provar o contrário.

Do Paulo Sérgio acho um treinador esforçado, motivado, que deve exigir muito dos jogadores física e psicológicamente, mas pouco dotado tácticamente e em treino de sistemas e situações de jogo. Acho-o uma espécie de Paulo Bento, berra muito, exige muito sacrifício em campo, põe os jogadores a comer a relva, mas não consegue fazer as equipas produzir acima daquilo que parece espectável face ao plantel. Este jogo da Académica, apesar de a seguir a um jogo razoável contra o Sporting, revelou um vitória sem fio de jogo, sem conseguir fazer dois passes seguidos, que nem sequer usufruiu do efeito motivacional imediato da troca de treinador. Sinto-o, infelizmente, incapaz em termos de traquejo táctico e motivacional (é preciso perceber que os nossos jogadores não são bem os do Paços) de dar a volta a isto, sobretudo por nem o ter sido logo nos primeiros onde se sente sempre alguma mudança. Espero estar redondamente enganado, mas esta é a minha perspectiva.

Mas desejo-lhe naturalmente os maiores sucessos, que consiga agarrar a equipa (coisa que parece não estar a conseguir) e que se conseguir algo de bom no Vitória, não estejam os nossos sócios a pedir a cabeça dele logo em seguida, porque já estão fartos de olhar para ele ou de aturar as suas birras.

Deixemos alguém completar um projecto no Vitória.

Certamente que é o Vitória quem sairá a ganhar.

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publicada por Paquito @ 23:21  

4 Comentários:

  • Às 04 novembro, 2009 12:25 , Blogger Saganowski disse...

    É facto por demais conhecido que no Vitória (e o mesmo se passará noutros clubes), quando as coisas correm mal, há que despedir o treinador.

    Esta situação compreende-se porque no futebol, muito mais do que nas nossas vidas do dia-a-dia, há a pressão de ganhar, de mostrar resultados e de agradar a uma enorme quantidade de gente que só paga para ver futebol se a sua equipa ganhar e se “jogar bonito”.

    Ainda mais se compreende esta sanha persecutória em relação aos treinadores de futebol no Vitória porque, se bem estão recordados, sempre houve o hábito de despedir o treinador ao primeiro sinal de maus resultados, de mau futebol ou de má relação com o Presidente.
    Se analisarmos a questão com alguma frieza, basta vermos que qualquer um de nós, dentro do grande reinado de Pimenta Machado, se lembra de, pelo menos, 10 treinadores que aqui estiveram. Eu recordo-me, pelo menos, de Vítor Pontes, Jorge Jesus, Inácio, Vítor Oliveira, Álvaro Magalhães, Jaime Pacheco, René Simões, Paulo Autuori, Marinho Peres, Quinito, Filipovic…Alguns deles apenas estiveram aqui uns meses! É, obviamente, muito treinador!!!

    Isto leva-me ao ponto fundamental: nenhuma equipa consegue resultados a curto prazo sem estabilidade. Essa estabilidade não é só presidencial, mas é também de relação entre quem manda e quem treina, em termos de liderança de equipas de trabalho no campo, desejavelmente sem interferências de quem manda (o que infelizmente acontece muito no Vitória!)

    Claro que não defendo que se uma equipa descer de divisão insista no mesmo treinador que a “enterrou”, mas o que defendo é mais tempo para mostrar trabalho! Mal estávamos nós, se ao nosso primeiro erro, os nossos patrões nos despedissem…
    Porque será que aqui não se faz como em Inglaterra, onde temos os exemplos de Sir Alex Ferguson e Arsène Wenger à frente dos seus clubes há uma data de anos? Porque se apostou a sério, num trabalho para dar frutos a longo prazo e não para agradar a massas associativas demasiado opinadoras, mas pouco compreensivas.

    Por isso, estou de acordo com o Paquito. Deixemos alguém completar um projecto no Vitória, de forma séria e sustentada.

     
  • Às 04 novembro, 2009 14:38 , Blogger Edmur disse...

    Sem tirar nem por, inteiramente de acordo meu caro Paquito

     
  • Às 05 novembro, 2009 11:45 , Blogger Miguel disse...

    100% de acordo.

    Acrescento apenas que a forma com que os Vitorianos vêm os resultados do clube, seja qual for o desporto em causa, não é a mesma que os adeptos de qualquer outra equipa, salvo raras excepções, que de tão raras nem estou a ver nenhuma.
    Se isso é bom ou é mau não sei. Sei é que seja ele presidente, treinador, director desportivo, médico ou seja lá o que for, que se meta no Vitória tem/deve saber que vai enfrentar gente muito difícil de satisfazer. Gente muito exigente e porque não ingrata, mas muito apaixonada.
    A grande diferença para os outros públicos é que se a 1ª equipa perder, tem sempre outra costela onde "afogar as mágoas".

    Quem souber lidar/dominar as pressões a que esta sujeito todos os dias não deverá ter grandes problemas. No entanto também não tenho para isso...

    Não é fácil não senhor!

     
  • Às 05 novembro, 2009 18:59 , Blogger Jeremias disse...

    Esta conversa de treinadores,projectos e estabilidade levava-nos mais longe do que um comentário a um post permite.
    Vingada não me entusiasmou e Paulo Sérgio não me entusiasma.
    Pelas razões aduzidas pelas "Velhas Guardas" mas essencialmente por outra.
    Os treinadores de grande sucesso no Vitória foram homens de grande carisma e uma ponta de genialidade.
    José Maria Pedroto,Marinho Peres,Quinito,Cajuda.
    Que souberam criar fortes empatias com a massa associativa.
    É certo que outros (Joao Alves, Autuori,Inácio)também obtiveram bons resultados mas nunca criaram essa ligação muito especial com os vitorianos.
    Vingada é um protótipo de antio carisma e P.Sérgio também não me parece que o vá conseguir.
    Por isso defendi que na saida de Vingada(e já na de Cajuda) o Vitória devis ter apostado num treinador estrangeiro.
    Competente,disciplinador,irreverente e sem medo aos 3 estarolas.
    Parece-me que assim seria mais fácil voltar aos sucessos e á necessária estabilidade.

     

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