19.3.12

Das eleições

Pronto. Acho que vou ter de ser eu. Para já ninguém escreveu, vou abrir eu as hostilidades.

Confesso que estou como o tolo no meio da ponte.

Nestas eleições, que se revestem de uma importância fulcral para o futuro do nosso Vitória, estou completamente baralhado. Mas tenho também uma grande vantagem, que é o descomprometimento total em relação às duas listas em contenda, pelo que posso emitir uma opinião o mais distanciada e isenta possível.

Nas últimas eleições votei em branco.

De Milo e companhia já sabia, e de que maneira, que nada de bom adviria. De Pinto Brasil, ainda que lhe quisesse – e muito – dar o benefício da dúvida, a campanha, a postura, os tiros nos pés, o freitaslobogate e aquele momento no Porto Canal que me envergonhou mais do que se se tivessem juntado o Alexandrino com a corneta e o Bruxo de Fafe com a cruz de Vitória feita, conseguiram fazer com que o meu voto fosse para nenhum deles.

E nestas eleições o meu candidato não seria nenhum destes dois.

Pinto Brasil não vejo que tenha evoluído grande coisa. E Júlio Mendes também não.

De Júlio Mendes enquanto político e vitoriano (da sua parca e mingua conhecida faceta da última vertente das duas aqui expostas) não tinha a melhor das impressões, sou franco. Tinha-o como um indivíduo arrogante, quiçá até mesmo a roçar a prepotência. O estilo messiânico, a lembrar Francisco Louçã, a atitude cardosiana (não Cartesiana, mas sim tipo a do João) de “quero, posso e mando”, veio-se agora a confirmar, nesta campanha eleitoral. Quando se nos apresenta naquela dicotomia “Ou eu ou o caos”, quando vem falar no “esgotamento” do modelo de gestão do Vitória, quando fala numa SAD e parece não saber (ou então não querer que se saiba) de que tipo ou modelo, vem-me sempre à memória aquele brilhante cartoon do Miguel Salazar, o da parede de tijolos com a palavra “Transparência” grafitada.

Tentando ser racional, vou fazer um exercício de análise por partes:

O modelo de gestão está esgotado: porquê? Porque uns mentecaptos megalómanos foram reeleitos depois de provarem que nem um tasco tinham competência para gerir? Se é para generalizar, então generalizemos. As SAD são um fiasco. Veja-se o Beira Mar, o Leiria, o Setúbal, o Boavista e mais algumas de que não me lembro. E dir-me-ão vocês que estou a ser faccioso porque não referi o Porto, Benfica, Sporting ou Braga. Até posso estar a ser. Mas ainda assim serei menos do que quem resume um modelo de gestão de uma instituição com quase um século de história a dois mandatos de uma cambada de incompetentes. Resumir mais de 80 anos de história a 5 e dizer que por isso temos que mudar, parece-me, no mínimo intelectualmente desonesto. Ou então revelador da falta de cultura vitoriana do candidato. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Incompetentes há-os em qualquer modelo de gestão. Imaginemos que tínhamos um Baltar como administrador de uma SAD (bato na madeira). Passava a ser competente apenas porque o modelo de gestão era “moderno”? O Milo já passaria ser gestor de topo de fosse administrador de uma SAD (cruz credo!), por oposição a ser doutor em talochas e betão nesta sua passagem pelo Vitória “apenas” clube?

Outra coisa que me faz enorme espécie é a presença na lista de Júlio Mendes de, para além do próprio, que fazendo fé na sua demissão, só saiu da direcção do vitória por falta de tempo, quem foi conivente com o segundo mandato dos que, agora fazem como Pilatos – não, leitores mais novos, não é aquela coisa com as bolas onde se faz alongamentos, é mesmo aquele da história do gajo que lava as mãos que vocês viram no filme do Jesus, mas que não era o treinador do Benfica, do outro.

Vejamos: Temos a candidato a presidente do CF alguém do CF que recomendava à AG que aprovasse o orçamento. Incoerência? Ou em sede de SAD, agora ele faria a análise de outra maneira?

E ainda Armando Marques, que se não estou em erro, esteve os dois mandatos com EMS.

E também Isidro Lobo, actual presidente do Conselho Vitoriano, que assistiu impávido e sereno à hecatombe, assobiando alegremente – não o Isidro mas o Conselho todo – enquanto eram deglutidos uns croquetes e outros que tais nos intervalos e compunham o camarote presidencial. Isidro Lobo esse que foi o rosto das Conferências para a apresentação da SAD aos vitorianos. Que perspicácia, caros amigos.

Que sentido de oportunidade. Soa quase a premonição. Chamem-se aqueles moços ingleses que faziam o programa na SIC com a filha do Ferro Rodrigues. É que eu não acredito nelas, mas parece que por aqui as há! Lembra-me agora aquele senhor que vai para as Assembleias Gerais do Vitória com as perguntas que parecem encomendadas. É que se não são, assentam como uma luva às respostas que a seguir são dadas, de tal maneira que parecem mesmo. Já agora chame-se também a da TVI, a que fala com os familiares mortos, que isto já são coincidências a mais.

Em pensando maquiavelicamente, poder-se-ia até imaginar que a sucessão de acontecimentos após as conferências foi propositada para que pudesse aparecer um testa de ferro apresentando a inevitabilidade do modelo que aí foi apresentado como o Santo Graal para o Vitória. Ele foi as incursões ao Dubai(?) do quase ex-presidente, a conversa estragada de que era a única solução, mas o tempo era pouco. E não é hoje, é para a semana. E depois para a outra. E os salários em atraso a acumularem-se a par das dívidas a fornecedores. E o cenário a ser preparado para que hoje haja uma situação em que os associados, que até há 3 meses atrás defenderiam o Vitória Clube na luta contra o Vitória SAD até à morte, aceitem resignados a fuga para a frente. Aquela que fará do Vitória a única SAD em Portugal onde será apetecível investir. Aquela SAD. A SAD. A SAD que já tem quem nela queira investir umas dezenas de milhões de Euros. E desde já assumir o que falta pagar da gestão ruinosa de quem nos fez estar como a Alemanha perdeu a guerra e a Maria aquilo que vocês sabem. Aquela SAD que tem quem nela queira investir, mas que não se pode saber quem é. E nem que percentagem terá das acções. E ainda não sabe se a alteração estatutária passará em AG, podendo fazer cair por terra toda essa estratégia, mas à partida, adiantará já o dinheiro necessário para as despesas prementes. É que se assim não for, se não houver esse dinheiro e a “ideia” for ir para a Direcção, fazer esperar os credores, tentar renegociar dívidas entretanto, como inferi da entrevista do JM, soa-me a uma mão cheia de nada e a outra da mesma coisa.

E temos de acreditar. Que seremos apetecíveis para um qualquer fundo sem fundo, ou sheik, ou Pishyar, ou Sérgio Silva ou lá o que for que aí virá.

Temos de passar um cheque em branco à Lista A. Acreditando. Pia e cegamente que ou o messias ou o fim. Que quem cá quererá investir virá com as melhores das intenções, querendo apenas uma parte do lucro que o Vitória gerará. Sim, porque toda a gente sabe que o Vitória vai ser um portento de rentabilização de activos. Vai dar dinheiro a rodos. Apenas porque vamos ser SAD. Mas temos de acreditar em JM. Passar-lhe o tal cheque em branco. Apenas porque sim, porque se não é o fim. A inevitabilidade. Caramba, mas eu para passar um cheque em branco a quem quer que seja tenho de sentir que confio 100% na pessoa a quem o passo. E que provas tenho eu de que posso acreditar em JM?

É certo que tenho amigos na sua lista, mas isso não é suficiente. Neles até posso acreditar. Mas não no JM. Não consigo. É mais forte que eu. Dou sempre por mim a ver um cartaz com a sua cara e a pergunta por baixo: Compraria um carro usado a este senhor? E confesso que só a custo. Teria que testar o carro primeiro e levar um mecânico que me garantisse que estava a comprar o que ele me queria vender.

Mas a mensagem da sua lista remete-nos para outro cenário.

De um momento para o outro, somos catapultados para outra dimensão.

Esquecemo-nos do enorme buraco em que estamos metidos, de que o Vitória tem excesso de funcionários e jogadores. Esquecemo-nos de que somos um clube que tem um director profissional das modalidades amadoras e um vice-presidente amador da modalidade profissional. Esquecemo-nos que o Vitória, se tem 8 milhões de receitas tem de preparar um orçamento com pés e cabeça onde também sejam previstos os juros e a amortização de dívidas e as despesas correntes e que não podemos continuar a ser pobres com carteira e tiques de rico.

Mas com JM, vamos todos entrar em êxtase porque vai chover dinheiro que nos vai permitir lutar pelo título. Se fossemos a IURD haveria senhoras a desmaiar nesta altura! Afinal de contas foi ele o mentor do Cartão Caixa Vitória e o tarifário Optimus. Sim, porque ele foi Vice-presidente, com o pelouro das coisas bem feitas. Só mesmo para o que se fez de bom. O que a Direcção fez de mal, já não era nada com ele.

Meus amigos, não nos façam de papalvos. Vamos primeiro organizar a casa e depois pensar em crescer. Sustentadamente. Fartos de promessas vãs andamos nós.

Eu sempre disse que só apoiaria quem tivesse um discurso realista. Nunca quem parece ter uma agenda obscura, quase secreta, fazendo da velha máxima desse ser a alma do negócio a pedra basilar da sua campanha.
Se neste momento e em campanha já é assim, que transparência, que abertura, em suma, que associação será o Vitória se JM for eleito? Se já o acho arrogante como candidato e o achava mais ainda como director do Vitória, como será se um dia chegar a nosso presidente?

Tenho medo. Tenho muito medo. Até porque a mudança para SAD é irreversível. Depois não há volta a dar. Se correr mal, se a SAD falir, o Vitória Sport Clube não poderá voltar a competir como clube nas competições profissionais de futebol. Salgueiros 08 (ou lá como aquilo agora se chama) diz-vos alguma coisa?
E se entregamos o nosso clube a alguém que pode ser o efectivo coveiro do mesmo, depois de estes terem começado a escavar o buraco?

E às vezes dou por mim a pensar. Ao menos o projecto da Lista B permite correcções de trajecto. E mudanças de Órgãos Socias, se com eles não estivermos satisfeitos. Uma luz ao fundo do túnel, penso eu!

E continuo, mas agora mais sobressaltado. O sonho começa a transformar-se em pesadelo:

Mas o candidato a presidente não é o Pinto Brasil? É que eu ainda não consegui perceber o que ele quer explicar do projecto dele. E ao ouvi-lo falar, fico com a nítida sensação que nem ele. A única coisa que consegui perceber é que ele ficou chateado com o Cirilo, mas da maneira que fala, parece que ficou chateado por não o ter na lista dele, ainda que diga o contrário. Mas isto já sou eu a divagar, porque, com toda a sinceridade, não o consigo perceber muito bem. E depois vejo o Dias Pereira, também mais preocupado em criticar pessoas da outra lista do que em apresentar soluções.

E se não os consigo entender e se acho que nem ele se entende lá essas coisas, como poderei votar nele?

Não tenho sorte nenhuma. Sinto-me como o caçador branco que é capturado por uma tribo e lhe dão a opção de bonga-bonga ou morte e após a óbvia escolha e subsequente primeira sessão de bonga-bonga ele escolhe a morte, provocando o júbilo dos presentes com a escolha de bonga-bonga até à morte!

Ainda esperei por outros candidatos. Outros candidatos que, pelo menos com o que me foi apresentado até hoje, tinham tanto para dar como JM. Mas eles, acredito que imbuídos de vitorianismo optaram por dar lugar a quem supostamente já teria solução para o problema imediato. O tal que, não se resolvendo, poderia significar a solução final e última. Mas até agora, não consegui perceber se JM tem solução para o imediato ou se ela passará por dizer que não a tem até termos de aprovar qualquer SAD que ele apresente. E de PB também não sei se tem mesmo os 3M€ que já disse que tem mas afinal, agora e para já, não pode falar muito sobre isso.

Que cara..o! Isto de ser vitoriano não é nada fácil. Ainda por cima, depois de a equipa ter feito greve de zelo na 2ª parte do jogo de ontem, sou forçado ter de escolher, mais uma vez, o mal menor. Um mtem uma SAD que ninguém pode saber como vai ser o outro tem garantido financiamento com aval próprio, mas não pode para já falar sobre isso.

Se ainda não têm dados concretos e palpáveis que possam apresentar, o que andam para aqui a fazer? E não me digam para ir às sessões de esclarecimento que, se começamos assim, é um mau augúrio para o que se quer que seja um clube do novo milénio. Não são os sócios que têm de andar atrás de informação, ela tem que nos chegar a nós. E vocês têm de a providenciar.

E continuo no meio da ponte… mas cada vez mais tolo!

publicada por Vitor Paneira @ 16:48  

3 Comentários:

  • Às 29 março, 2012 09:30 , Blogger Saganowski disse...

    Este comentário foi removido pelo autor.

     
  • Às 29 março, 2012 09:31 , Blogger Saganowski disse...

    Grande texto...e um texto grande, sim senhor!
    O grande Paneira está quieto e calado durante o jogo e, de repente PUMBA! Manda umas jogadas de mestre com cabeça, troco e membros, com uma excelente análise das 2 candidaturas!

    Concordo com a análise feita e tenho passado algum tempo a reflectir sobre tudo o que pode acontecer ao nosso clube nos próximos tempos...e não estou nada sossegado!

    Qua vai ser do Vitória depois do próximo sábado??? Tenho medo, tenho muito medo...

     
  • Às 29 março, 2012 10:05 , Blogger Saganowski disse...

    E já agora que falamos nisso, gostava que alguém me dissesse (quem sabe até se não o próprio "inventor" da ideia, o sr. JM) quantos são os que tem o tal "Cartão Caixa Vitória" ou o tal "Tarifário Optimus"! É que desde o seu lançamento nunca mais vi nenhuma referência, publicidade ou campanha aos mesmos digna desse nome...nem ninguém que dissesse que tinha ou um ou o outro!
    Isto não é também um prejuízo para o Vitória???

    Se hoje que temos um clube onde ninguém esclarece tais coisas (e outras) só pergunto (sem ter esperança de alguém me responder...): até que ponto algum dos candidatos vai (ou não) mudar isso?

    É mesmo aquilo que tu dizias, caro Paneira. A informação tem de vir ter com os sócios e não o contrário. E em termos de informação, parece que ninguém quer dizer nada, com medo de perder votos.
    Mas, será que não falar também não dá para perder votos?

     

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