4.9.12

A parábola do Fiat 600 e do Rolls Royce...


Ele tinha o seu valor. Começara por baixo e tinha subido a pulso. Estava bem na vida, mas o que ele queria agora era alguma projecção social. Era rico, mas queria também o respeito do povo da sua terra.

Resolveu então tirar a carta de condução, lá na terra pois claro, que na cidade parecia-lhe um desafio demasiado arrojado. A coisa correu-lhe mais ou menos bem. O trânsito na terra era menos complicado, e o engenheiro que lhe fez o exame era gente conhecida e amiga. Tratou logo de arranjar um lugar de motorista no clube recreativo local. O Fiat 600 não era o Ferrari dos seus sonhos, mas sempre era um carro, e era a ele que ficava entregue a partir daquele dia.

E assim andou durante uns anos. Apesar de não ter um motor que lhe permitisse grandes veleidades, ainda assim lá foi conseguindo arranjar os seus problemas. Batidela aqui, batidela acolá, umas vezes sem seguro, outras sem selo, com um sem número de infracções gravíssimas ao Código da Estrada, a verdade é que um dia se viu levado à barra do tribunal. O Juíz não o condenou, mas deu-lhe um valente sermão. Foi coisa feia aquela que teve de ouvir da boca do Magistrado, coisa para envergonhar qualquer um, e deixá-lo sem vontade de voltar a ser visto em público durante o resto da sua vida, mas a verdade é que ele era superior a isso tudo. Importante mesmo era não ter sido condenado. O resto eram apenas trocos…

Mais tarde veio o convite de um amigo da cidade. Motorista de gente rica, o amigo conduzia um Rolls Royce, preto e branco, descapotável, lindo de morrer, e estava a precisar de alguém que o mantivesse assim a brilhar. Nem pensou duas vezes. Fez as malas e mudou-se para a cidade.


Conforme o tempo ia passando, mais ele se convencia de que deveria ser ele próprio a conduzir aquele Rolls Royce. Afinal tinha um volante e quatro rodas como o Fiat 600. A diferença não lhe parecia agora tão grande como no início. Para além do mais, limpá-lo e lavá-lo não era também o seu destino. Um dia decidiu – o motorista hei-de ser eu.

E assim foi. Algum tempo mais tarde, quando o amigo caiu em desgraça, sem se perceber muito bem porquê (nem por causa de quem), foi ele quem se apresentou à frente do patrão, sugerindo-lhe ser ele a pessoa mais indicada para substituir o colega que acabara de ser destituído. Vendo arrojo e determinação onde apenas havia cobiça e ambição desmedida, o patrão lá caiu no seu engodo, tomando a decisão de que haveria de se arrepender para o resto da sua vida.

Durante uns tempos, não foi ele quem conduziu verdadeiramente o automóvel. Era o patrão que o conduzia, até ao dia em que foi de viagem e teve de lho confiar. Só quando pôs as mãos no volante conseguiu compreender que aquele automóvel era muito diferente do velho Fiat 600. O volante também lá estava, de facto, e o número de rodas era o mesmo, mas era imensamente maior, a caixa mexia-se sozinha, e os pedais eram apenas dois e não os três que sempre conhecera. Diziam que só tinha dois porque tinha caixa… au-to-má-tica. Quando carregava no acelerador, os cavalos relinchavam e o automóvel empinava-se de um modo verdadeiramente assustador. A coisa era bem mais difícil do que aquilo que inicialmente supusera.

E o inevitável acabou mesmo por acontecer. A combinação explosiva da sua total falta de jeito, da sua incompetência e irresponsabilidade e ainda da potência desenfreada do motor do Rolls Royce, levaram-no inapelavelmente de encontro a uma parede, e aquilo que ele sempre mais temera acabou por acontecer.

Inicialmente entrou em pânico, sem saber muito bem como haveria de resolver a situação, mas como o patrão estava fora, teve tempo de se recompor e ordenar as suas parcas ideias. Também não havia muitas a ordenar, pois a solução era evidente. Tinha de resolver a situação da única maneira que aprendera durante toda a sua vida – a via do desenrascanço.

Começou então a vender as peças do interior do automóvel. As peças do Rolls Royce davam muito dinheiro, e rapidamente juntou o necessário para poder pagar as despesas da carroçaria destroçada. Juntou isso e muito mais... Com tanto dinheiro na mão, olhou para ele e pensou se haveria mesmo necessidade de o desperdiçar no chapeiro. Afinal, o patrão estava fora e ainda não sabia nada sobre o acidente. Não, pensou. Não iria desbaratar assim aquela dinheirama toda. Aquela seria para si, que ninguém sabe o que, de mau, o futuro reserva a cada um de nós.

E foi assim que continuou a vender mais e mais peças do interior do Rolls, que a cada dia que passava, mais se parecia com o Fiat 600. Era maior, com certeza, mas cada vez mais parecido, de tão nu que ia ficando. Para ser praticamente igual, já só faltaria pôr-lhe mais um pedal e uma alavanca das velocidades que se mexesse. Foi nesta altura, quando já estava quase igual ao velho Fiat, e já não havia quase mais nada para vender, que o patrão finalmente regressou da sua viagem. E foi pena, porque se se tivesse demorado apenas mais uns dias, teria conseguido vender o motor e, aí sim, aí teria conseguido realizar o negócio da sua vida.

O patrão ficou em choque quando viu o estado miserável em que se encontrava o seu Rolls Royce. De cabeça perdida, despediu o seu motorista, expulsando-o de casa a pontapé, à frente do resto da criadagem, para o meio de um lodaçal. E a humilhação até nem era demasiada, para a enormidade que ele tinha cometido.

Ainda hoje as pessoas se interrogam sobre a razão que poderá ter levado o patrão a nunca ter arrastado aquele indivíduo para o tribunal.

Nunca mais o patrão foi capaz de esquecer o sorriso cínico que lhe viu estampado no rosto, no momento em que lhe lançou um último olhar desafiador, do meio da lama e do lodo para onde tinha sido lançado. Não conseguira perceber ao certo se aquele cinismo se devia ao facto de mais uma vez ter saído incólume das suas trafulhices, ou se já estaria a pensar na próxima golpada.

A verdade é que já estava mesmo. Já cobiçava o Ferrari vermelho rutilante de uma família abastada do Sul, da cidade grande, cujo motorista era um indivíduo que em tempos tinha prosperado no comércio da venda de pneus. O Ferrari, sim. Esse é que era o seu sonho de menino - o seu verdadeiro destino.
Coitada da família da cidade grande do Sul. Vivia ainda feliz na sua ilusão, sem fazer ideia do mal que ainda lhe podia vir a acontecer...


Moral da História:
Se tens um Rolls Royce e gostas dele, nunca o confies a quem apenas sabe conduzir um Fiat 600, e sobretudo se não estiveres seguro da sua honestidade. Mas se fores insensato, e ainda assim o destino te permitir livrares-te de tão nefasto indivíduo, então assegura-te de que nunca mais ele possa voltar a entrar em tua casa.

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publicada por Ibraim @ 19:38  

3 Comentários:

  • Às 11 setembro, 2012 12:54 , Blogger Jeremias disse...

    uma parábola genial do IBRAIM(mais uma)a que me permito apenas acrescentar uma pequena nota. Acho que o patrão tem a firme ideia de responsabilizar o motorista pela destruição causada no magnifico automóvel. Só que achou prioritário por o carro a andar outra vez não fosse ele imobilizar-se definitivamente. Mas não tenho duvidas que uma vez isso conseguido o motorista vai pagar bem caro o que fez.

     
  • Às 11 setembro, 2012 17:29 , Blogger Ibraim disse...

    O que quer dizer que, apesar da sua já tão provecta idade (quase 90 anos), o Patrão ainda mantém a lucidez da juventude...

     
  • Às 11 setembro, 2012 19:22 , Blogger Gregório Freixo disse...

    Brilhante. Ao último tipo a fazer parábolas desta qualidade começaram a chamar-lhe Messias.

     

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