Saber aprender
Regresso para partilha de um desabafo, porque estou com a mente intranquila, com necessidade de pôr cá for alguns pensamentos.
Aquilo a que assistimos hoje, é uma grande lição de humildade a todos nós, vitorianos. Pelo menos, dêem-me a oportunidade de o interpretar assim, cada um o fará à sua maneira. Eu não consigo assistir ao que hoje assisti, e dizer que foi sorte, que foram os árbitros, que foi a ajuda do FCP, nada, só consigo olhar para mim próprio, para nós próprios, e procurar reflectir, e desejavelmente concluir.
A verdade é que hoje vimos o Braga vencer o Sevilha na casa deste, num local de onde há poucos anos saímos derrotados por 3-1. Então, para a fase de grupos da Taça UEFA, fizemos deslocar 3.000 bravos vitorianos. Hoje, numa qualificação para a Liga dos Campeões, eles fizeram deslocar 2.000 adeptos do Braga (não sei como se designam, aliás, acho que não têm designação…) E de que nos adiantou levar mais gente? De que nos adianta termos tido, na época passada, a maior média de espectadores a seguir aos (antigos) 3 estarolas, bem superior à do Braga que, por sinal, ficou em 2º lugar e disputou o campeonato até à última jornada? De que nos adiantou isso? De que nos tem adiantado isso? De nada, mais uma vitória de Pirro, nas quais aliás, somos campeões.
A verdade é que há 2 anos, conseguimos apurar-nos para a eliminatória de acesso à Liga dos Campeões. Saiu-nos o (fraquíssimo) Basileia. Eram legítimas as expectativas de ganhar? Mais do que legítimas! Fomos indecentemente roubados? Fomos, absolutamente; cá, lá e pelo caminho. Mas não entramos, não (apenas) por termos sido roubados, mas por ao longo dos 2 jogos que tivemos não termos sido capazes de ser claramente superiores ao nosso adversário. E a verdade é que o Braga, para estar presente na Liga dos Campeões, eliminou dois colossos do futebol europeu: o Celtic de Glasgow e o Sevilha.
A verdade é que somos desde sempre o maior clube português a seguir aos três grandes, e nem uma mísera Taça de Portugal temos no palmarés, a verdade é que somos um clube adiado, e permanentemente ultrapassado. Nos anos 70, depois de já termos duas participações europeias, chega à I Divisão o Boavista, clube que, 10 anos mais tarde viria a ser o nosso rival. Vimo-lo ser campeão nacional e apurar-se duas vezes para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Enquanto isso, mantivemo-nos na fresca ribeira. Agora, vemos este nosso rival, que nunca foi nosso rival desportivo, foi sempre um clube de lutar para não descer, passar-nos claramente, não apenas em resultados, não apenas no apuramento para a Liga dos Campeões, mas em projecto, em equipa, em estabilidade, em sustentação, em tudo que parece adivinhar um futuro equivalente ao seu presente, pelo que se sente de estabilidade e estruturação, enquanto que nós, não fôra o Euromilhões que agora nos saiu, este autêntico conto de fadas futebolístico, e estávamos relegados a uma condição mediana. E não estaremos à mesma?
A verdade é que o Braga apresentou-se em Sevilha sem estrelas, sem contratações sonantes, com uma grande maioria de jogadores formados no campeonato português, em clubes menores da I Divisão, e que o Braga pesca, logo a seguir aos grandes. A verdade é que nós continuamos a contratar carradas de brasileiros (que favorecem porventura mais o negócio que lhes está subjacente do que o clube), não somos competitivos a comprar no campeonato nacional, continuamos a não ter e a formar um jogador “à Vitória”, um estilo de jogo.
A verdade é que o Braga apresentou-se em Sevilha com jogadores que já têm muitos anos de casa, que foram comprados pelo clube sem esperar resultados imediatos (o Matheus, só a título de exemplo, andou emprestado em Setúbal), e que está a colher os frutos de um trabalho lento mas programado, calmo e estruturado. A verdade é que o Vitória se apresentou ontem no D. Afonso Henriques com um jogador a titular que não tem 2 semanas de casa, a verdade é que estamos à espera de um salvador que chegou já com o campeonato a rolar, a verdade é que o Vitória voltou – mais uma vez – a revolucionar por completo o plantel, apresenta um 11 inicial em que para além do Nilson (para já!) é raro ver mais algum titular da época anterior. Ora, como se diz a rodos no mundo da bola, “quando assim é…”
Temos que ter a humildade de deixar de olhar para as vitórias dos nossos adversários com fanfarronice, com despique estéril, mas com inteligência, fazendo a pergunta sacramental a nós próprios: não seria possível sermos nós ali?
E a resposta só pode ser uma: seria; claro que seria!
Pergunta de mais difícil resposta já é se nos questionarmos: então porque não somos?
Aí é que a porca torce o rabo…
É que não nos podermos alhear do facto do Vitória ser, classicamente, ou se preferirmos, com mais estabilidade, o 4º maior clube português. Já foi o Belenenses, já foi o Boavista, agora é o Braga, e em todos esses períodos, quando todos esses estavam nos seus momentos de maior brilho, aquele que com eles disputava esse lugar, era o Vitória. O Vitória tem-se sabido manter nos grupos que disputam os lugares imediatamente a seguir ao Trio Odemira, mas nunca se consegue destacar. Eu penso que aí a razão é igualmente simples, nós temos de facto uma massa humana, associativa e adepta, que em tempos áureos se manifestou no empresariado, em fervoroso, espontâneo e financeiramente significativo apoio ao seu clube, e que tem conseguido manter este clube sempre nos lugares cimeiros. Agora, desses lugares – que são os nossos por direito – para a frente já nós não conseguimos empurrar, já estamos nas mãos de quem nos governa, e aí é que é o diabo…
Eu penso sinceramente que, por razões diversas, o motivo do nosso fracasso está directamente relacionado com quem nos dirige. Digo fracasso porque creio que não podemos qualificar de outro modo quem está mais de 80 anos a tentar sem nunca conseguir, quem tem os meios para conseguir chegar mais longe e nunca chega, quem tem tudo para ganhar ao menos uma mísera Taça e não o consegue em cerca de 80 participações quando já o conseguiram, nada mais nada menos do que 10 clubes nacionais! Somos um pouco como o anúncio da Danoninho…
Seja porque somos comandados por quem se serve do Vitória, seja porque somos liderados por quem não sabe servir o Vitória, a verdade é que temos sido manifestamente incapazes de estruturar um projecto. Por intencionalidade ou falta de jeito, não temos tido ninguém com visão, com capacidade de gestão, com vistas largas para programar um clube para uma década, para o dimensionar, ao menos, à altura daquela posição em que a nossa massa adepta no coloca. E já não é de hoje que digo isto: http://d-afonsohenriques.blogspot.com/2009/01/de-como-os-nossos-adeptos-nos.html
Somos mais um entreposto comercial de compra e venda de jogadores, de negócios invariavelmente com o mesmo mercado (brasileiro), que é o melhor, mas há outros, como sabemos, mas que é sempre preferido dos nossos dirigentes, também pelos motivos que sabemos. Tudo isto é que é verdade, e tudo isto é a causa de sermos um clube adiado.
Nós não podemos gerir uma casa com orçamentos de € 12 milhões e ter que contratar gente para falar inglês (?!) carência impensável em qualquer empresa de idêntica dimensão orçamental, nós não podemos ter uma empresa de € 12 milhões de orçamento entregue a amadores (sem com isto pretender apoucar, qualificando, os dirigentes, mas apenas fazer notar a sua condição de não profissionais), nenhuma empresa de idêntica dimensão o faz, nós não podemos pagar € 300 mil pelo Milhazes, depois de cá ter estado meio ano em que toda a gente que quis ver viu o que ele valia (estamos a pagar idêntica maquia pelo “salvador” Toscano), nós não podemos ver 3 jogadores do Vitória (Sereno, Andrezinho e Desmarets) hoje em clubes tão insignificantes como F.C.Porto, Colónia e Dep.Corunha e não ver um cêntimo que seja, nós não podemos, em suma, continuar a ser geridos como uma mercearia, a deixar os ordenados baixos porque enquanto estão assim pagamos menos, e depois ver-nos as oportunidades de crescimento, de realização de negócio, passar-nos ao lado. É que nós temos quase tudo para conseguir. Bastava não atrapalhar.
Mas há uma última conclusão, esta sim, inevitável.
E essa é de que é possível!
Já não adiantam os discursos miserabilistas de que chegar ao estatuto dos 3 grandes é algo impensável para um clube da nossa dimensão. Nós somos, claramente (embora não em termos desportivos) o 4º clube português. Por muito grande que seja a distância entre nós e o Trio Odemira, se nós não o conseguirmos, quem o conseguirá? Se aquele que está imediatamente a seguir não for capaz, que dizer dos outros? Para mais quando vemos agora o Braga, que é um clube do qual todos sabemos ser difícil arranjar um adepto genuíno, que é um clube como sabemos sem sustentação real na massa humana, atingir claramente esse patamar, não apenas de se imiscuir entre eles, como de ser um deles. Temos que reconhecer que esse sempre foi o nosso objectivo, o nosso sonho, e que fracassamos. E temos visto os nossos rivais atingi-lo, com muito menos ovos, têm feito muito mais omoletes.
Por isso, chega de discursos redutores: o Vitória pode qualificar-se para a Liga dos Campeões; o Vitória pode vencer a Taça de Portugal; o Vitória pode ser Campeão Nacional; o Vitória pode vencer a Taça UEFA. Não é fácil, é aliás extremamente difícil, mas é possível.
Assim saibamos servir o Vitória, servir a instituição, assim saibamos fazer escolhas a pensar no futuro do clube e não na imagem que quedará de um ou outro mandato, assim saibamos resistir à tentação de fazer negociatas com o nome desta grande instituição e com os corações de (muitos) milhares de vitorianos, assim saibamos, de uma vez por todas, estar à altura da instituição que servimos e representamos. Com o seu engrandecimento ganhamos todos, ganha sobretudo Guimarães, coisa que em Braga foi visto em tempo, e aqui, como sabemos, passa ao lado de quem tem a pena decisória.
Aliás, convém não esquecer, pela importância. Há uns anos, quando quase atingíamos o que o Braga agora atingiu, afastados pelo temidíssimo Basileia, aqui se comentava, entre os vários méritos que teria uma qualificação para Champions League, o encaixe financeiro que daí resultaria, pelo menos € 5 milhões mais o que viesse de alguns pontitos. Achei, e achamos todos, que perdemos na altura a oportunidade de dar o salto por podermos ter um encaixe absolutamente extraordinário para um clube da nossa dimensão.
Não nos qualificamos, é certo, mas vendemos o Bebé por € 9 milhões! Isto é, com esta venda encaixamos o correspondente a duas entradas na Champions League. Vou estar, e penso que todos devemos estar, atentos, à forma como vai ser gasto este dinheiro. Porque nós não tivemos o brilho desportivo da qualificação, mas conseguimos o encaixe financeiro equivalente, aliás bem superior ao que na altura esperávamos, pelo que nenhuma razão há para que esta venda e este encaixe não signifique a oportunidade de darmos o salto.
Vou estar atento. Como penso que todos o devemos estar.
Termino, pedindo desculpa aos que tiveram paciência de chegar até aqui, mas termino ainda com uma citação para reflexão:
“Os primeiros jogos, ainda particulares, mas já na condição de clube oficial ter-se-ão realizado nos primeiros meses de
In “Vitória 75 Anos de História”, de Raul Rocha.
Este foi o primeiro jogo da nossa História.
Vejam o tempo que decorreu e a inversão com que isto está hoje.
Se isto não nos fizer reflectir, e exigir, não sei o que fará.
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